Friday, September 5, 2008



No silêncio póstumo da noite, pesa-me o corpo sobre o epírito semi-desperto. Escuto os sons de uma Lisboa que dorme, ao longe, junto ao mar. O pulsar audível do cansaço, bramindo sobre esta almofada de pedra, revela a impossibilidade do sono, contorcido, amarrotado, como lençóis que se desfazem.
Recosto o dorso metamorfoseado sobre o frio da parede, qual carapaça kafkiana que carrego, como bicho. Ligo o rádio e escuto uma melodia ruidosa, destorcida.
O vento rodopia incessantemente lá fora, trazendo consigo a chuva, o aconchego do fado sintozinado numa qualquer frequência média.
Há uma voz que se acende, uma viola, uma guitarra, murmurando sobre a cidade ... vielas de Alfama, ruas da Lisboa antiga ... beijadas pelo luar, quem me dera lá morar p'ra viver junto do fado. Eis-me escutando e consentindo as memórias do passado...

Lembras-te dos tempos em que subíamos as escadinhas do duque, o elevador da Glória, a Rua da Rosa? Contavas-me histórias do fado, revividas na nostalgia, na repugnância de um presente electrónico, de metal, tatuado nas esquinas de um bairro sujo, saqueado pela mitra que agora vende pó e erva no passeio onde um dia se cantava e ouviam guitarradas. Dizias, os tempos estão mudados. Como, sem saber, te compreendia. Também eu procuro um passado que o presente tornou puro, que o futuro chama para si.


Acenavas a todas as esquinas, conhecia-las bem. Declamavas versos, cantados na fumegante penumbra das colinas e sorrias, sorrias, sempre que corríamos para não perder o comboio para o Rossio. Como é estranho o ser humano. À medida que o tempo passa, as recordações tornam-se cada vez mais nítidas. Tenho a sensação de que faço parte do grupo de pessoas que entrava para o elevador no momento exacto da fotografia.
Lembro-me da paciência com que esperavas por mim. Cada acorde que aprendia despertava em ti a satisfação plena da causa.
Mesmo que mal tocadas, as músicas que tocava eram sempre as melhores. Assim como as palavras, os gestos, os diálogos, os sorrisos, a companhia. Bons momentos aqueles que agora recordo, ao som do mesmo fado que teimava em não gostar, mas de que também sou feita e cujas origens não posso recusar.

Viveste o fado de forma despretensiosa, honrando-o a cada nota, a cada palavra proferida com a força e verosimilhança da vida. Pertenceste a uma geração que o amava como meio de expressão de um povo oprimido, repleto de sentimentos, sedento de gritar e de explodir. Não, o fado não se encerra na dormência da ditadura. Quantos os poemas que me deixaste, ainda com as marcas da censura, palavras riscadas, apagadas, à revelia da verdade poética de um povo que sofria, que escutava e cantava para não sofrer.

Ouço este fado que agora termina ... e então a lua, corada, ciente da sua culpa, esconde-se envergonhada... penso em ti e em como foram bons aqueles momentos partilhados. Pudesse retribuir tudo o que por mim fizeste, a humildade que me ensinaste, o amor que me deste. Trago em mim uma parte de ti, feliz contentamento da saudade.


Escuto os sons de uma Lisboa que acorda, ao longe, junto ao mar. É dia.


1 comment:

EGP said...

Parabéns! O teu blog é cuidado, sensível, discreto mas muito profundo e inteligente! =) Continua (e concede a tua benção ao IT de vez em quando... LOL... Para ver se aquilo começa aos poucos a acordar!...)