Naquela tarde dançavas ao vento. O teu olhar vago espraiava uma opacidade de cristal, pura, como a verdade. Os teus cabelos ondeavam na sombra desse corpo de elástico, e dele os braços, as mãos, repeliam os últimos reflexos de luz. E gritavas. Gritavas para que te ouvissem, sorrias para que te acenassem, choravas na impossibilidade de concretização do mundo à escala gaussiana, à margem do desvio padrão, da exclusão matemática dos que sofrem pela (in)diferença desta sociedade em que vivemos, feita à medida da distribuição normal.
Moldavas os gestos e as palavras sobre os mesmos gestos e palavras dos demais, daqueles que não te ouviam, nem tão-pouco se esforçavam para ouvir-te. Fora do jogo de pares, à sombra da competição nojenta, da petulância repugnante daqueles que te ignoravam, não pertencias àquela pseudo-amizade desigual, injusta, cruel. E saías, de sorriso tenso no rosto, sempre com essa contractura mentoniana, dissoluta no caminho para casa.
Quantos os gritos que lançavas sobre o mundo. Quantas as lágrimas que devoravas em silêncio, quantos os caminhos que sonhaste sem viver, as paixões que nem chegaram a ser. Quanto do teu ser se encontra fechado em ti, ser que sofres no tumulto da superação, aceitação. Não deixes que o silêncio seja a tua arma, nem que a timidez seja o teu abrigo.
Segue o teu caminho na certeza de ser esse o teu próprio caminho. Revela ao mundo o que de belo há em ti, num ostinato audível e indelével. Nem sempre o que é mais importante para os outros nos torna mais felizes. Firma a tua existência, é nela que reside a felicidade. Vai em frente, não percas mais tempo.

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