Wednesday, August 27, 2008


Nunca para mim o silêncio foi tão decrépito.
Páginas, páginas, páginas e mais páginas ... in the absence of expression of the GATA-1 and FOG-1 ... que percorro nestas 24 heurs de L' Harrisons, numa luta desenfreada rumo a um futuro incerto, sem querer nem vontade ... tudo depende da nota ... The Viem-Siltzbach (só percebo a parte do Bach) is a specific diagnostic test for sarcoidosis ... blá, blá, blá... Thus, this test is of historic interest and is rarely used in current clinical practice... da nota, da nota, da nota ... que de tanto se repetir já perdeu o sentido. Agora, vivo do piloto automático que se instalou no meu corpo. Sou comandada à distâcia pela cacofonia que paira na mente dos iluminados inventores das provas de seriação. Mmmm... vejamos como eles são bons ... não sabe o gene?? não sabe a mutação?? isso é elementar meu caro ... qualquer pessoa tem de saber que o SCL7A9 e o SLC3A1 não são resultados de um jogo de Playstation ...
E assim vive um Harrisoniano... fechado no quarto a marrar sobre a delinquência de uma prova que decidirá o seu futuro. Nada faz sentido, as incongruências são mais que muitas e a relação risco-benefício, entenda-se, morte neuronal-saber, é sobejamente desfavorável.
Procura-se uma excelência a priori, de escritório, de escrevaninha, de quatro paredes, como se de uma empreitada se tratasse. Primeiro colocam-se os candeeiros, depois pintam-se as paredes, ladrilham-se as divisões, aplica-se o estuque, o cimento, colocam-se os tijolos e só no fim, caso a estrutura aguente, os alicerces. E depois? Depois logo aprende o ofício... que isto do ensino vocacional só nas artes... coisas de lunáticos que encontram vida num quadro, que vibram com o odor matizado do entardecer, com o eco da alvorada emergindo da placidez crepuscular... loucos, insanos, que amam o que fazem ... mesmo sem Mercedes nem Rolls ...
Nada disto faz sentido, nada, e o pior é que nem sequer posso ousar pensar sobre o assunto. Sou forçada a resignar-me a esta missense mutation e faço-o com o principal objectivo de me livrar disto da melhor forma possível, procurando manter o que resta da minha integridade física e sobretudo mental. Ainda não é desta que vou dar em louca!
Entre castelos de areia que se fazem e desfazem a cada página, procuro subornar esta sufocante falta de praia e de mar com um pouco de música, companheira de todas as horas. Luís de Freitas Branco, Concerto para Violoncelo, 3º andamento. Há quanto tempo não escutava esta melodia, perdida algures entre a tralha que guardo no disco do pc. Como é bom ser surpreendida por momentos assim, como é bom olhar para o mar do Carvoeiro ao fim da tarde, como é bom cheirar a brisa maresiada do Algar Seco e procurar nos contornos das rochas as iluminuras reveladas pelo brilho da lua. Como é bom olhar para o braço da via láctea que ao longe se dissipa, como é bom reencontrar Deneb, Altair, Vega, tão nítidas como os contornos do triângulo de Verão. Como é bom pelejar contra o vento fresco da noite. Como é bom respirar.


Luís de Freitas Branco, Concerto para Violoncelo, 3º andamento
Miklós Perényi (violoncelo) e Jeno Jandó (piano)

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