Tuesday, July 8, 2008



Lá fora, o vento sopra num desespero de Verão. O nitrido dos estores fricciona o silêncio audível da noite, esboçando contornos indeléveis, escotomas de luz apagada, que coalescem num fechar de olhos, de pálpebras cansadas.

Ao longe ecoam pausas de fusa intercaladas pelo incessante ponteio das horas, gastam-se minutos de vida que desvanece por entre os dedos de uma mão que se fecha, emanam gritos de dor e de revolta de um espírito exilado, contam-se as balas perdidas no peito de um coração mutilado, calam-se crianças que, famintas, choram por um pedaço de pão abeçoado, cresce o desespero e a miséria de um povo enganado pelos dogmas da corrupção.

Como a vida é inóspita e impossível neste mundo de açúcar, alicerçado na mentira, na crença ilusória da igualdade, da prosperidade e da democracia. Que ser é este que se arrasta movido pelo tilintar metálico de moedas que brilham no zénite da ambição do Homem. Existirá alma no fácies pétreo e corrosivo dos corpos flamejantes que ardem no fogo-fátuo da competição, da luta arguta pela superação?

Não, não é lícito viver assim. Calem-se os demagogos, os magos místicos que perpetuam os erros do passado, cunhando nas trevas da ignorância o brasão de um país derrotado. Insurjam-se as massas, incendeiem-se os espíritos ultrajados, quebrem-se os grilhões que amarram o nosso ser repisado. Cumpra-se a verdade.

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa

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