Wednesday, May 7, 2008


Passavam espectros de sirenes perfumadas que entravam e saíam esgravatando o caminho para a urgência. O cheiro a urina tresandava pelas fendas do passeio onde escarros de pombos, coalescentes, secavam a poente de um cigarro apagado. Quantos os rumores de gente, os zumbidos de gente, os fervores de gente que sucumbiram ao silêncio morgue daqueles quartos repletos de janelas, de olhos, por onde ninguém espreitava. Pudesse o tempo calar as almas suplicantes que ali ecoam, pudesse eu ignorar a reclusão da espera!

A água deslizava no granizado íngreme por onde escorriam laivos roxos de sangue pisado, coalhado, de ninguém. Os carros, os doentes, os familiares dos doentes, os fornecedores, a carrinha dos bolos, as ambulâncias, os seguranças, os andaimes, as latas de tinta, os estetoscópios, as tábuas de madeira, as gerações e gerações de ciganos, as carretas, as macas, e tudo o mais, contribuíam para ornamentar aquele vazio de sentido, de espaço.

Ao longe, séquitos de bata branca e caneta em punho arrastavam-se atrás de criaturas fantasmagóricas, vomitando nomes de doenças, expelindo bichos que vivem nas entranhas, anotando meticulosamente a liturgia monocórdica que o engalanado professor vociferava. Feitas as vénias ao saber magistral e findado o discurso de apresentação, eis que um desprezo enorme se encarregava dos pobres jovens, despojados, colados nas esquinas dos muros como vermes, segurando as paredes dos corredores, anotando cada pormenor do rodapé à sanca, sem que nada lhes escapasse.

Como tudo era ridículo. O ensurdecedor ruído do comboio auschwitziano em cujo vidro embaciado escorria um fácies de criança esmagado pela multidão, o bulício nas plataformas do metro onde jovens de nariz, unhas e sapatos esguios, de código penal em braços, estonteavam os olhares acutilantes do “pica”, o corpo caquéctico do bate-ritmos do metro, o dorso aquilino do vendedor do Borda d’ Água, o emetizante odor sudoríparo dos corpos contra corpos, o asfixiante fumo dos escapes, o infindável tempo de espera nos imensos corredores daquele hospital de pedra.

O sol daquela Primavera de ersatz esfumava os contornos escuros da sala. Ao canto, dois olhos secos e minúsculos perscrutavam o movimento dos enfermeiros que se aproximavam, acenando em sofrimento à limpeza das escaras que, como larvas, carcomiam o seu corpo lívido, semi-morto, velado pelas composições serialistas que emanavam dos monitores cardíacos. O sorriso meigo e complacente de criança esboçava a dor, a solidão e a espera, retardadas pelo esforço inglório da ciência, ali subjugada perante os desígnios da natureza.

Como, naquele espaço vazio onde lençóis de batas brancas enforcadas por estetoscópios pretos, cinzentos, azuis, grenás, que entravam e saíam sentindo o frémito balbuciante, a pressão ténue, órfã de vida, daquele ser jazendo sob braços jovens que se cruzavam e descruzavam em ânsias para responder às questões do professor, como, naquela indiferença de sentir, naqueles apontamentos onde o insolente visco da petulância derramava como sangue sobre mãos envernizadas, sobre fácies pseuo-jovens empinados, proferindo palavras pseudo-doces, em pseudo-divinos gestos redentores, era ignorada pelos doutos e pseudo-doutos que num franzir de tez, discutiam apressadamente o seu estado clínico, transitando de fármaco em fármaco, de doente em doente, de caso em caso, de cama em cama, de número em número, como se de um papel se tratasse.

Tudo calava naquele vazio súbito, nequele verde marinho onde boiavam enfermeiros verdes, médicos verdes, doentes verdes que jaziam em silêncio, na esperança vã de um milagre. O azul do céu de Ourique, o verde maresiado do Tejo, o matizado odor das árvores de Sintra, o reverberante som dos pássaros, volatilizavam sobre os vidros do comboio, sobre os corpos etéreos daqueles corredores pálidos, infindáveis, de gelo. O clamor das suas mãos preludiava os ossos descarnados com que tacteava as grades de metal, e ao idílio primaveril sucedia a cor carne, deslavada, das entranhas, naquele ventre de mulher onde apenas ecoavam timbres metálicos de nada, de um ninguém sentindo a força anímica e afásica do silêncio.

Pudesse eu descobrir a razão de ser deste sofrimento cáustico, deste sufocante epílogo mahleriano que devassa os meus sentimentos mais profundos, desta luta desigual que ultrapassa os limites do inteligível, desta vida sufragada pela vontade dos outros, desta morte velada por pessoas incógnitas, na solidão recôndita de um quarto onde dispo esta bata branca, desamarrando o estetoscópio que ostentava como medalha da minha nobre condição de quase-médica.

Caem folhas que dançam sobre mim como cabelos enriçados, descarnados ao som da brisa clara da noite. E no ímpeto do cansaço, nesta amálgama de contradições maceradas pelo sono, recobro a força telúrica que diariamente me impele. A nascente, vislumbro já bafos de multidões ofegantes, aceno aos séquitos com que me cruzo nos infindáveis corredores e, neste campo de forças bipolares que me desconjuntam e exploram até à medula, corro feliz na irredutível esperança de um simples rumor de vida.

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