Sunday, February 17, 2008

Regresso a casa ...

Foi numa tarde fria, interlúdio de uma seca noite de Outono orquestrada pelas emoções colhidas durante o dia, que o nosso caminho convergiu. Linha de Sintra, algures entre as 20:00 e as 21:00 horas, Sete Rios, destino Agualva-Cacém… e lá íamos nós de regresso a casa. Jornada solitária e muda, em que os olhares se cruzavam no cansaço de mais um dia de trabalho. As luzes do comboio, baças e purulentas, iluminavam o reflexo cansado e borbulhento de um rosto interciso pela ranhura das portas que se abriam… Benfica. O comboio parou, como uma cadência ao 6º grau que suspensa, cedo retomou a marcha no encalço das barras metálicas, friccionadas pela aridez das rodas que cortavam o vento. De repente dei por mim, afinal também eu lá estava e nem sequer me apercebia… os meus pensamentos aliciavam a minha consciência e os meus sentidos, numa amálgama de imagens vividas ao som de Debussy… quarteto de cordas… 3º andamento. Senti a tua presença em contornos de brisa ondulante como o desenho que trazias. Serias pintor? Inspirado por aquela multidão anestesiada e espectral, murmuraste pela folha já escrita que então gritou por algo mais, pedindo que a vestisses com roupagens asténicas e lucífugas, solidárias com a rotina fibrosada de uma pastilha sem sabor, seca, colada! Como eu te compreendia. Não nos falámos, nem sequer olhares cruzámos porque ambos deambulávamos na mesma realidade. Olhávamos em sentidos opostos mas víamos precisamente a mesma matéria e anti-matéria; vivíamos tempos distintos fundidos num só espírito sonhador e empreendedor, sitiado na implacável ditadura dos tempos. O vento da prosa hasteava a tua flor de guerra como poema que por mim passava, por mim… que também não tinha terra. Ambos procurávamos a pureza daquele regresso, despreocupado e livre, alheio a pressões quotidianas. Éramos simplesmente dois jovens, com vontade de viver! A beleza daquele momento, que para os demais nem chegava a sê-lo, era suficientemente poderosa para impedir que compreendêssemos e tolerássemos aquele rebanho de mancebos tornados escravos (do Tal e Qual e restantes congéneres). Como era possível aquela estagnação, após mais um dia de trabalho maquinal? Era preciso gritar contra aquele marasmo vicioso: rede sem furos por onde nem sequer passava o ar; asfixia constante monopolizada pelo circuito fechado de viver sem pensar… lutar… por uma condição mas digna e consciente, em que mesmo os mais velhos pudessem sonhar! E gritávamos… e grito! Barcarena…. O comboio travou! Ambos saímos vislumbrando o mesmo luar que fugazmente se tornou nítido como a noite cristalizada. Foi então que seguimos caminhos divergentes, rumo à realidade das nossas vidas. Deixei de te ver mas não te perdi… Encontro-te todos os dias, sempre que apanho o comboio, sempre que olho para mim, reflexo de ti! São viagens como estas, infindáveis como o segundo que não passa, que nos despem, num tempo só nosso. A reflexão é a panaceia para o espírito. É ela que nos transporta para a consciência e sentido da vida. É nela que encontramos a solução para os nossos problemas. É por ela que digerimos a realidade aproximando-nos dela. A vida é um pleonasmo de erros. É preciso criticar… cultivemos as virtudes que nos restam!

1 comment:

Ancazza said...

Que lindo.. ^^
bastante inspirador este texto.
cumprimentos*