Sunday, February 17, 2008

Escutando Elis ...

É no recanto do espaço que sinto o cheiro daquela voz quente e doce de café, daquela face risonha de piteira aos lábios que serenos proferem palavras de amor. Amor! Que sentimento estranho capaz de moldar os afectos, a mente! Capaz de estar presente nos mais ambivalentes momentos da vida- do ausente desejado, ao presente jamais renunciado. No momento em que nos achamos mais fortes, tudo se quebra, tudo descongela e desconjunta. De repente... parece que apenas existimos pelo outro, para o outro, tal como a música que só faz sentido quando ressoada nos ouvidos do povo. Assim como não é preciso estudar música para chorar ao som de Chopin ou saber desenhar para admirar um Dalí, também o amor nasce espontaneamente, sublimado pelo ósculo da chegada, do adeus, pelo qual procuramos auscultar a reciprocidade de um coração que por nós bate... que por nós luta... que por nós bombeia para cotinuar a ser! Mas como é difícil! Todos sabemos que um dia tudo acabará, nós, os outros... Se mais ninguém nascesse a partir deste momento e se voassemos no tempo, todas as ruas ficariam desertas, tudo petrificava! Só ficariam as luzes que gastas não tardariam em desvanecer. O circadiano halo solar sucederia ao limbo lunar e no escuro de uma noite sem estrelas não haveriam filhos para dar o jantar, não haveria ninguém com quem falar, não restaria nada! Nem a solidão. Também ela é feita de amor... nem que seja da sua ausência. Amor... terra da vida. É por ele que continuamos a lutar. Ainda que não tenhamos força, é por ele que nos agarramos à vida numa epopeia em prosa que termina em verso... Como é real o sofrimento por que passa, como é lírico quando volta a si e nos abraça. Vivemos numa concha limitada por onde parcamente nos damos ao mundo, aos outros. Podemos pesar com eles e por eles, podemos até chorar mas tudo passa... porque são apenas outros. Parece cruel pensar assim mas é o que por norma acontece. Quantas vezes vemos ambulâncias em missão urgente e sofremos pelo ser que ali vai? Mas... Quantas vezes voltamos a lembrá-lo? Basta um telefonema ou um carro que entra sem ter prioridade para que aquele momento seja absorvido pelo vazio do esquecimento. Tudo aquilo que não amamos é volátil, dissipando-se no tempo. É um não acordar súbito, renegado por aqueles que amam e que amo. No limiar da vida, ainda que não tenhamos forças para abrir os olhos ou para sorrir, ainda que as capacidades vitais se fundam como o fio metálico de uma lâmpada, só o amor nos detém. Quando as vozes ecoam batendo nos nossos sentidos numa amálgama de sofrimento e desespero, de vontade de desistir, é por amor que lutamos e procuramos subsistir... Existir, resistindo ao vento que no exausto arrastar do tempo nos faz levitar... como plumas que se espraiam no azul do céu.

1 comment:

Anonymous said...
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